Educação internacional: por que a Ásia ganha espaço

Na Coluna Educação Global de maio, Lara Crivelaro analisa como países asiáticos transformaram a internacionalização da educação em estratégia de desenvolvimento e inovação

Ao longo das últimas décadas, a internacionalização da educação tem sido frequentemente associada a modelos ocidentais, especialmente aqueles oriundos da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, uma análise mais atenta dos movimentos recentes no cenário global revela uma mudança importante nesse eixo de referência. Países asiáticos, com destaque para a China, têm assumido uma posição cada vez mais relevante ao articular políticas educacionais que combinam investimento estratégico, adaptação de práticas internacionais e desenvolvimento de soluções próprias.

O caso chinês é particularmente ilustrativo. A partir das reformas iniciadas no final do século XX, o país passou a investir de forma consistente na formação de estudantes e professores, estruturando um sistema educacional orientado para a competitividade global. Esse movimento não se deu de forma isolada ou baseada apenas em tradições locais. Ao contrário, houve um esforço deliberado de observar, compreender e incorporar práticas internacionais, ao mesmo tempo em que se construía uma identidade educacional própria, alinhada aos objetivos nacionais de desenvolvimento.

Segundo relatórios da Organisation for Economic Co-operation and Development, especialmente no âmbito do Programme for International Student Assessment, estudantes de regiões como Xangai passaram a ocupar posições de destaque em avaliações internacionais, evidenciando não apenas desempenho acadêmico elevado, mas também competências relacionadas à resolução de problemas e pensamento crítico. Esses resultados não são fruto de ações pontuais, mas de políticas públicas de longo prazo, que incluem valorização docente, formação continuada, revisão curricular e forte integração entre educação e desenvolvimento econômico.

Além disso, a China ampliou significativamente sua presença internacional por meio da mobilidade acadêmica, do envio de estudantes ao exterior e da atração de instituições estrangeiras, consolidando um modelo que articula internacionalização “para fora” e “para dentro”. Esse movimento dialoga com análises da UNESCO, que destacam a internacionalização como um processo estratégico para o desenvolvimento sustentável e para a formação de cidadãos capazes de atuar em contextos globais.

Diante desse cenário, torna-se inevitável uma reflexão sobre o contexto brasileiro. Ainda que existam iniciativas relevantes, a internacionalização da educação básica no Brasil permanece, em grande medida, fragmentada e concentrada em nichos específicos. Falta, em muitos casos, uma política estruturada que permita às escolas integrar de forma consistente práticas internacionais ao seu projeto pedagógico, indo além de ações isoladas como programas bilíngues ou intercâmbios pontuais.

Nesse sentido, observar o que países como a China vêm realizando não implica replicar modelos de forma acrítica, mas compreender estratégias, identificar caminhos e, sobretudo, ampliar repertórios. A internacionalização, quando pensada como política educacional, exige exatamente isso: capacidade de análise comparada, abertura ao diálogo intercultural e disposição para inovar a partir de referências globais.

É nesse contexto que iniciativas de imersão internacional ganham relevância. A experiência direta em outros sistemas educacionais permite aos educadores acessar práticas, metodologias e estruturas que dificilmente seriam compreendidas apenas por meio de leituras ou relatos indiretos. Trata-se de um movimento formativo que impacta não apenas o indivíduo, mas também as instituições às quais ele está vinculado.

A Missão Ásia, que realizaremos em setembro, nasce exatamente com esse propósito. Ao promover visitas a escolas, universidades e organizações educacionais na Ásia, buscamos criar um espaço de aprendizagem situado, no qual gestores e educadores brasileiros possam observar, dialogar e refletir sobre diferentes modelos de educação. Mais do que uma viagem, trata-se de uma estratégia de formação continuada, alinhada às demandas de um mundo cada vez mais interdependente.

Como argumenta World Economic Forum, as competências necessárias para o século 21 estão profundamente relacionadas à capacidade de adaptação, colaboração intercultural e aprendizagem contínua. Nenhuma dessas competências se desenvolve plenamente em ambientes fechados ou restritos a uma única perspectiva cultural.

Por isso, talvez o maior desafio — e também a maior oportunidade — para os educadores brasileiros seja ultrapassar os limites físicos e simbólicos de suas próprias instituições. Conhecer outras realidades, dialogar com diferentes culturas e compreender como outros países enfrentam desafios semelhantes não é mais um diferencial. É parte do próprio processo de formação docente em um mundo globalizado.

A educação brasileira não precisa escolher entre o local e o global. Precisa, antes, aprender a articular ambos de forma intencional. E, para isso, olhar para experiências internacionais — como a trajetória recente da China — pode ser um ponto de partida consistente para repensarmos caminhos, estratégias e, sobretudo, o papel que desejamos ocupar no cenário educacional global.